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"Uma milícia que mata". Italianos revoltados com papel do ICE na segurança dos Jogos Olímpicos de Inverno

"Uma milícia que mata". Italianos revoltados com papel do ICE na segurança dos Jogos Olímpicos de Inverno

A confirmação de que agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) vão desempenhar um papel de apoio à segurança durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina está a provocar indignação pública e pedidos formais para barrar a presença do ICE em Itália.

RTP /
Foto: Seth Herald - Reuters

A agência de imigração norte-americana confirmou que a sua Divisão de Investigações de Segurança Interna (HSI) estará envolvida no evento, esclarecendo, contudo, que “todas as operações de segurança permanecem sob a autoridade italiana” e que “obviamente não realizará operações de fiscalização de imigração fora dos Estados Unidos”, segundo o jornal britânico The Guardian.

Ainda assim, a notícia está a desencadear uma forte reação em Itália, alimentada pelo histórico recente do ICE nos Estados Unidos.Em causa está o envolvimento da agência nos dois tiroteios fatais em Minneapolis, incluindo o de Alex Pretti, de 37 anos, baleado em Minneapolis no passado sábado, e de Renee Good, ambos este mês. 

No mesmo contexto, dois jornalistas da televisão pública italiana Rai referiram ter sido ameaçados por agentes do ICE enquanto cobriam operações em Minneapolis.
Segundo a reportagem, um agente advertiu que o vidro do carro da equipa da Rai seria partido caso continuassem a filmar.

O presidente da câmara de Milão, Beppe Sala, foi uma das vozes mais críticas em relação ao envolvimento da agência. “Esta é uma milícia que mata. É evidente que eles não são bem-vindos em Milão. Será que não podemos simplesmente dizer não a Trump de uma vez por todas?”, afirmou à rádio RTL citado pelo The Guardian.
Em declarações posteriores, reforçou “que (os agentes do ICE) não deveriam vir para a Itália porque não garantem que se conformem com a nossa forma democrática de assegurar a segurança”.
Inicialmente, o ministro italiano do Interior, Matteo Pantedosi, minimizou a questão, dizendo que mesmo que agentes estivessem presentes, isso não seria um problema, seria “perfeitamente normal”, já que delegações estrangeiras podem escolher a sua própria segurança.

Contudo, perante o crescimento da polémica, adotou uma posição mais firme, afirmando que “o ICE certamente não operará em território nacional italiano”
e sublinhou que a segurança do evento é garantida pelo Estado italiano.

Os EUA, acrescentou, não divulgaram uma lista de pessoal de segurança.

A controvérsia intensificou-se após o governador da Lombardia, Attilio Fontana, afirmar que o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio, seriam protegidos por “guarda-costas do ICE” durante os Jogos Olímpicos.

Segundo a BBC, Fontana procurou depois acalmar os ânimos, sugerindo que a presença do ICE estaria limitada à proteção de JD Vance e do secretário de Estado dos EUA.
"Nós mesmos podemos cuidar da segurança. Não precisamos do ICE”
A oposição política aproveitou o episódio para criticar o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni.

A senadora Barbara Floridia, do Movimento Cinco Estrelas, alertou que o silêncio do executivo seria “mais uma prova de covardia e subserviência a Donald Trump”.

Já Alessandro Zan, eurodeputado do Partido Democrático, escreveu na sua rede social X que a presença do ICE seria “inaceitável”. “Na Itália, não queremos aqueles que pisoteiam os Direitos Humanos e agem fora de qualquer controle democrático”, afirmou.

Dois partidos da oposição, a Aliança Verde e de Esquerda (AVS) e a Azione, lançaram abaixo-assinados exigindo que o Governo italiano e o comité organizador dos Jogos impeçam a entrada e o envolvimento de agentes do ICE.

“O ICE é a milícia que atira em pessoas nas ruas de Minneapolis e separa crianças de suas famílias”, declarou a AVS.

O jornal italiano La Repubblica noticiou que o Governo italiano chegou a considerar bloquear a participação dos agentes, mas que tal decisão exigiria uma mudança significativa nos protocolos habituais de proteção a autoridades norte-americanas em visitas oficiais ao exterior, segundo o The Guardian.

O ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, tentou reduzir a tensão. “Não é como se a SS estivessem a chegar”, disse, numa referência à organização paramilitar nazi. “Eles não estão a vir para manter a ordem pública nas ruas. Estão a vir para colaborar nas salas de operações.”

Apesar das garantias oficiais, o presidente da câmara de Milão manteve a sua posição. “Nós mesmos podemos cuidar da segurança. Não precisamos do ICE”, afirmou Beppe Sala, resumindo o sentimento de uma parte significativa da opinião pública italiana à medida que se aproxima a abertura dos Jogos, no próximo dia 6 de fevereiro.
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